Agora, eu não gosto tanto do céu - me lembra você. Talvez seja besteira parar de apreciá-lo por sua causa, mas é pior estragar algo tão bonito com sentimentos tão ruins. Azul escuro, azul claro, roxo, rosa, laranja. Nem se quer olho mais pela minha janela, não importa o que aconteça, só.. Ignoro, como se não existisse nada algo além do nosso planeta. A chuva chorando, molhando meus cobertores, afogando meus pés, nem me irrita mais. Nunca mais vi aqueles pássaros negros que costumavam voar toda hora em bandos por aqui, que pousavam no meu telhado: parece que eles não gostam de pessoas que estejam maltratando o céu - estou o magoando, mas é necessário. Agora, as estrelas representam toda a beleza em sua tragédia. É lindo, mas trágico para seres como eu. Quebrados, feridos, estúpidos. Para esses que não conseguem alcançá-las, que se tormentam pensando no dia que vamos roubar alguma, que pensam de mais e fazem de menos. A beleza em poder reconhecer isso, mas a trágedia em não saber usar. Agora, olho para a Lua e a luz me ultrapassa. Me perdi tanto nos fantasmas que tornei-me um. Ela não me perdoou por tê-la abandonado. E eu não mereço sua compaixão. Agora o Sol não sorri mais para mim, não me enche de energia mais. Os raios coçam minha alma, mas não chegam mais perto. Agora as nuvens não me deixa pintá-las mais; nem assoprá-las ou mesmo varre-las; a brisa parou de sussuras histórias ao pé do meu ouvido; o vento também nem dança mais com os meus cabelos. E não é só culpa sua, como minha. Talvez algum eles me perdoem. Talvez algum dia eu me perdoe.
Mais uma vez, se jogou contra as paredes listradas. Aquilo era o o inferno, e o pior que era... Quase que literalmente. Estava um calor que, a cada passo dele, deixava o chão meio deformado. Uma voz ressoou ao corredor gélido:
- VINTE E UM!
Então era a sua vez. Ele revirou os olhos, murmurou um "finalmente" e saiu do quarto. As botas arrastavam pelo piso reluzente folhas e cinzas, deixando uma trilha por onde passava, e o garoto recebia olhares desaprovadores no caminho. Sua aparência estava grotesca e totalmente inadequada. Ele ouvia os outros pensando coisas como "Tem que ser maluco para encontrar o Mestre desse jeito", "Onde já se viu alguém fazer isso?", "Que falta de respeito!". Queria responder de volta. A primeira fala era de Margareth, uma velha carrancuda achada nua em meio das ovelhas - e depois ele que era maluco. Mas seguiu silenciado. Guiado por homens em azul escuro de dois metros e meio de altura, desceu escadas, cruzou pátios, andou o Palácio todo. Era grandioso, realmente, até ele tinha que admitir. Não tinha nem uma ponta de dedo de trabalho humano naquilo, porque nunca, nem em um milhão de anos, alguém mortal conseguiria fazer tamanha perfeição. Tetos altos abobados, paredes bordadas com ouro, janelas no chão. Ele pisava com força ao chegar nessas, pensando que, se quebrassem, poderia tirar alguma vantagem disso depois. Mas nada aconteceu, nem mesmo uma rachadura. Chegou, finalmente, aonde deveria. Por um milésimo de segundo, se sentiu envergonhado pelo seu estado - camiseta cheia de rasgos molhada em sangue, casaco furado, rosto arranhado, cabelo revolto - mas só por um milésimo de segundo. Nem diante à Ele o garoto recuava.
- Mestre. - disse com a voz arranhada, fazendo uma breve referência.
- Estou cansado de você, Maxillius. Quantas vezes no último século te vi agachar diante à mim?
O som mais claro que os seus ouvidos poderiam ouvir era esse, de sua voz. A figura deixava-o cego, apenas dando-lhe algumas formas. O trono em sua frente era a única coisa realmente vísivel, encrustado com os preciosos mais preciosos, as palavras mais sagradas e desenhada perfeitamente para cada detalhe daquele ser.
- Dois mil quatrocentas e quarenta e uma vezes.
- Isso é tristemente impressionante.
- E farei-te uma surpresa quando chegarmos ao dois mil e quinhentos. - Maxillius rasgou um sorriso.
- Não estou tão certo que você sobreviverá até lá.
- Eu sim.
Era uma grande ousadia falar algo assim para o Mestre. Poderia ser jogado ao abismo eterno em um piscar de olhos.
- Volte. - o Mestre ordenou. - Mas se seus pés tocarem o meu chão em qualquer momento dos próximos dois anos, é o seu fim.
- Você irá me perder mais breve do que quer, assim.
- Você já está perdido, meu caro.
X levantou o calcanhar para dar um passo.
- Maxillius.
- Sim, Senhor?
- Os próximos dois anos começam agora.
... O maior problema sempre foi e sempre vai se eu não ser uma pessoa com fé e nem você, mas mesmo assim, nós construir (falsas) esperanças em cima dos próprios desejos sem nem pensar no quanto doloroso poderia ser
E
é.
E
é.
Porque você é aquele clichê:
Café, cigarros e sexo.
Mas odeio café,
Mas cigarros me fazem tossir,
Mas eu sou virgem.
E meu bem, saiba que:
Não irei te beijar no café-da-manhã
Nem te deixar fumar dentro de casa
Ou te dar uma rapidinha.
Café, cigarros e sexo.
Mas odeio café,
Mas cigarros me fazem tossir,
Mas eu sou virgem.
E meu bem, saiba que:
Não irei te beijar no café-da-manhã
Nem te deixar fumar dentro de casa
Ou te dar uma rapidinha.
O garoto se contorcia no chão. A camisa rasgada em tiras, a poeira subindo, o fogo engolindo o chão. A pele manchada em óleo e graxa e sangue e suor, a dor arrebentando-o como alguém puxa com força a linha de alguma roupa. Os dentes batiam e roçavam, os gritos atingiam cada corda vocal sua. Os cabelos fios de ouro estavam negros, os olhos azuis; cinzas - como todo o caos dali. Os sapatos estavam furados, as costas repousadas em vidros, a visão toda embaçada. Explosões machucavam os seus tímpanos. Jorrava lágrimas gordas e sem gosto. De novo, a tatuagem queimou. Era uma cruz céltica no meio do peito, do tamanho de seu dedo anelar esquerdo. Sentia como se despejassem magma. Quando virou a cabeça instintivamente tentando escondê-la do sofrimento, viu algo reluzir. Conseguiu distinguir uma lâmina, nada mais, à dois centímetros de distância. Sua chance única. Encostou os dedos e a segurou de leva. Sentiu quase um conforto naquilo. E a voz sussurrou: "Pega-a, pega-a, quero ver sua carne, seu fraco, ande, pega-a, eu sei que você quer, adiante-se, estamos perdendo tempo, ande, estripe-se até as entranhas, mas saiba que eu não irei sair de onde estou." Em suas veias corria escuridão e pecado, aquele talvez era o seu fim. Mais vozes chegaram, ásperas, altas, finas, baixas, profundas, sombrias. Seu cérebro estava rachando. E viu, então, uma mão se estendendo na altura do cenho.
Pequenas,
E em luvas brancas.
Não acreditava, mas reuniu tudo que podia para agarrá-la.
Enxergou cabelos pretos até a cintura e uma máscara de renda.
O vestido até os calcanhares impecavelmente passado e tão claro quanto asas de um anjo.
A menina sorriu e afastou os cabelos dos olhos dele.
"Você deve estar se perguntando quem sou eu." a melodia mais melódica de todo o universo, era a sua voz. "Pois bem. Eu sou a sua salvação."
"Não existe salvação." ele disse com esforço, os pulmões se comprimindo e tosses secas entre as palavras.
"Um rapaz sem fé, interessante. Geralmente é nessa hora que eles estão suplicando por ajuda."
"Fé é uma mentira. E eu não minto."
"Isso por si só já é uma mentira." a garota passou a mão no rosto dele. Era como ser beijado pela Lua, pensou.
Silêncio. Absoluto. Nem as vozes se atreveram.
Naquele momento, uma raiz de esperança brotou nele.
"Olhe nos meus olhos.", ela pediu.
Não. Não. Não.
"Olhe."
"Não, por favor."
"Por quê?"
Não recebendo nenhuma resposta, ela puxou o maxilar dele e forçou-o.
"É o lugar onde os meus demônios se escondem."
Percebeu então que ela era realmente sua corda para sair daquele poço tão fundo.
A lâmina ainda estava em sua mão.
E, segundos depois, manchando o vestido dela.
Ela só pendura as roupas com o cabide virado pro lado esquerdo
Ele ganha a sorte sempre quando via um gato preto
Ela tem as unhas frágeis
E ele, sempre um isqueiro no bolso.
Ela lia água com açúcar
Ele detestava gravata
Ela comia cenoura crua
E ele, perdia o brilho dos olhos cada vez mais.
Ela gosta de desembaraçar colares
Ele sorria cicatrizes
Ela usava sempre um anel na mão esquerda
E ele, cantava todas as quintas-feiras.
Os dois eram assim
Tudo a ver com nada
Mas ao mesmo tempo
Tudo a ver com tudo.
Ele ganha a sorte sempre quando via um gato preto
Ela tem as unhas frágeis
E ele, sempre um isqueiro no bolso.
Ela lia água com açúcar
Ele detestava gravata
Ela comia cenoura crua
E ele, perdia o brilho dos olhos cada vez mais.
Ela gosta de desembaraçar colares
Ele sorria cicatrizes
Ela usava sempre um anel na mão esquerda
E ele, cantava todas as quintas-feiras.
Os dois eram assim
Tudo a ver com nada
Mas ao mesmo tempo
Tudo a ver com tudo.
Tomei o isqueiro da mão dele e acendi o meu cigarro. A cada tragada, a fumaça permanecia mais tempo nos meus pulmões.
- Cara. É o seu quarto hoje.
- Foda-se.
Eu sabia que ia ficar cuspindo meus brônquios mais tarde. Mas então pensei: será que eu estarei aqui mais tarde?