this is YOUR kingdom come

05:45

O garoto se contorcia no chão. A camisa rasgada em tiras, a poeira subindo, o fogo engolindo o chão. A pele manchada em óleo e graxa e sangue e suor, a dor arrebentando-o como alguém puxa com força a linha de alguma roupa. Os dentes batiam e roçavam, os gritos atingiam cada corda vocal sua. Os cabelos fios de ouro estavam negros, os olhos azuis; cinzas - como todo o caos dali. Os sapatos estavam furados, as costas repousadas em vidros, a visão toda embaçada. Explosões machucavam os seus tímpanos. Jorrava lágrimas gordas e sem gosto. De novo, a tatuagem queimou. Era uma cruz céltica no meio do peito, do tamanho de seu dedo anelar esquerdo. Sentia como se despejassem magma. Quando virou a cabeça instintivamente tentando escondê-la do sofrimento, viu algo reluzir. Conseguiu distinguir uma lâmina, nada mais, à dois centímetros de distância. Sua chance única. Encostou os dedos e a segurou de leva. Sentiu quase um conforto naquilo. E a voz sussurrou: "Pega-a, pega-a, quero ver sua carne, seu fraco, ande, pega-a, eu sei que você quer, adiante-se, estamos perdendo tempo, ande, estripe-se até as entranhas, mas saiba que eu não irei sair de onde estou." Em suas veias corria escuridão e pecado, aquele talvez era o seu fim. Mais vozes chegaram, ásperas, altas, finas, baixas, profundas, sombrias. Seu cérebro estava rachando. E viu, então, uma mão se estendendo na altura do cenho.

Pequenas,
E em luvas brancas.
Não acreditava, mas reuniu tudo que podia para agarrá-la.
Enxergou cabelos pretos até a cintura e uma máscara de renda. 
O vestido até os calcanhares impecavelmente passado e tão claro quanto asas de um anjo.
A menina sorriu e afastou os cabelos dos olhos dele. 
"Você deve estar se perguntando quem sou eu." a melodia mais melódica de todo o universo, era a sua voz. "Pois bem. Eu sou a sua salvação."
"Não existe salvação." ele disse com esforço, os pulmões se comprimindo e tosses secas entre as palavras. 
"Um rapaz sem fé, interessante. Geralmente é nessa hora que eles estão suplicando por ajuda."
"Fé é uma mentira. E eu não minto."
"Isso por si só já é uma mentira." a garota passou a mão no rosto dele. Era como ser beijado pela Lua, pensou.
Silêncio. Absoluto. Nem as vozes se atreveram. 
Naquele momento, uma raiz de esperança brotou nele. 
"Olhe nos meus olhos.", ela pediu.
Não. Não. Não. 
"Olhe."
"Não, por favor."
"Por quê?"
Não recebendo nenhuma resposta, ela puxou o maxilar dele e forçou-o.
"É o lugar onde os meus demônios se escondem."
Percebeu então que ela era realmente sua corda para sair daquele poço tão fundo.
A lâmina ainda estava em sua mão.
E, segundos depois, manchando o vestido dela.








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2 comentários

  1. Gostei muito do post.
    Bom texto!
    Quero ler mais!

    Bjs :)

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    Respostas
    1. Fico felizíssima com isso! Obrigada por gastar seu tempo comigo. :)

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