Uma sala de paredes e chĂŁo tĂŁo brancos quanto folhas sulfites. Luz entrava pelo teto, fazendo quase impossĂvel olhar-se adiante. O garoto entrou. Manchou o chĂŁo com as suas botas enlamadas e ignorando a claridade cegante, virou a cabeça pra cima e sabia que ali tinha alguma coisa. Pisou fundo e continuou. O silĂȘncio era tĂŁo pesado que era possĂvel molda-lo ao seus conformes. Os olhos arderam, como se todos os raios solares resolvessem pousar ali. Enfiando o rosto nos braços, tropeçou nos cadarços. Sua avĂł sempre dizia para amarrĂĄ-los, mas ele nunca deu a mĂnima: colocava-os dentro do sapato de qualquer jeito e fazia o que tinha que fazer. NĂŁo gostava de desperdiçar o seu tempo com coisas assim. Agora, o que mais tinha era tempo. Parou e os enlaçou. Satisfeito, prosseguiu e distinguiu uma forma alguns metros de distĂąncia. Seria uma menina...?
Era.
Era definitivamente uma menina.
Era "a" menina.
Ela estava com as costas cobertas pelo cabelo preto liso, bagunçado, com margaridas colocadas entre as mechas, abraçada aos joelhos e com a cabeça caĂda.. Pintas delicadas traçavam os braços e as pernas, ele via. Costelas saltavam, os ossos dos quadris nus. Alex sentiu sua melancolia dali. Quis correr atĂ© seus pulmĂ”es estourarem, mas nĂŁo o fez. NĂŁo era covarde. Ele tinha que enfrentar as consequĂȘncias. SĂł nĂŁo entendi: por que fora enviado ali? Como ela ainda estĂĄ viva? Ele jĂĄ nĂŁo estava sofrendo o suficiente?
Suspeitava, no entanto, a resposta da Ășltima pergunta. Era Ăłbvio que nĂŁo, ele descobriu, assim que a menina se virou.
Ela notou tudo. Os cabelos loiros dele estavam levantados num topete rebelde, as cicatrizes daquela vez que a encontrara sĂł estavam mais saliente, uma nova camiseta o cobria, o nariz milĂmetros mais entortado, nem mesmo um fantasma de sorriso em seu rosto. As mesmas botas. Os mesmos olhos - nĂŁo. Isso era mentira. Dessa vez eles nĂŁo a levavam para a sua alma. Era como se estivesse vazio, opaco. Talvez estivesse.
Alex gemeu. NĂŁo sentiu nada alĂ©m do comum: a dor excruciante no peito, bem no coração - e nĂŁo era sĂł fĂsica. Aquilo que, metaforicamente dizendo, ele nĂŁo tinha. A ironia disso Ă© mais do que Ăłbvia. Os pesadelos atormentavam-o toda maldita noite, os lapsos de memĂłria rachando o seu crĂąnio a cada segundo, demĂŽnios correndo em sua pele. NĂŁo havia exorcista que os tirassem. NĂŁo havia mais cura que o curasse. Nem a morte iria acolhĂȘ-lo mais. (...)