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Sob um céu negro e luz fraca, mármore reluzia um brilho fadigoso, preguiçoso. Um carvalho grande pendia seus longos braços sob a terra molhada, servindo de cobertor às almas e provocando sombras riscadas. Baixos lamúrios poderiam ser ouvidos, se prestasse atenção. A maioria estava em

paz, só haviam alguns poucos recém cavados. Era sempre assim, no começo. A mais nova lástima vinha desses olhos e cabelos bagunçados. Não temeu a Senhora nem em seu último segundo: se tinha que ser, seria. Mas seu coração quebrou ao perceber que Elisa ia perder, mesmo que temporiamente, aquele sorriso encantador que sempre tivera. E então doeu. Doeu como nunca havia doído antes, quando notou que sua existência a machucou, como se atirasse uma flecha em uma andorinha - pura e inocente. Ele era a tal arma. Por  um segundo, desejou não ter saído do ventre de sua mãe. Já no outro, afastou tal pensamento, pois uma das mais importantes liçōes que aprendeu com a amada foi conformar-se com o passado, pois este é imutável. "Ao invés de tentar mudar o passado, tente mudar seu pensamento sobre ele. Pensamento que é presente e a maior honestidade existente. É isso que faz a diferença, querido. Não realmente o fato, mas como o vemos e como nos afeta.", ela disse certo dia de outono, entre bebericos de chocolate quente e bochechas rosadas. Suas aflições acalmaram, mas e a dor? Já não poderia tocar sua pequena pinta perto do umbigo, fazer-lhe cafuné quando algum livro a abalasse, enfiar flores em seu cabelo para depois dizer que não sabia o que era Margarida e o que era Elisa. Ah. De baixo de tudo isso, desejava o melhor para ela. Ela teria que seguir em frente. Merecia encontrar alguém que a amasse tanto quanto ele o fazia. "E que não a machucasse assim", repreendeu-se de novo. Não era sua culpa, ele sabia, claro. Mas era um mar de confusões naquele momento. Opiniões gritavam-no de todo lado. Olhou para a carcaça que um dia fora, bichos já apossavam-se de seu cérebro e dedos. "Pelo o menos serve para algo, acho.". 
E de cima, a Senhora olhava-no, curiosa. Sempre se interessava por novatos, mas esse possuia uma aurea extraordinária. Reluzia em aceitação e paz, e era só o seu primeiro dia. Geralmente levam-se meses, até mesmo anos para acontecer. Mas também exalava dor. Não o tipo de arrependimento, não o tipo de saudades.  O tipo altruísta. Isso a pegou de surpresa - e veja, não é fácil surpreende-la.
"Você."
"Sim?"
E então a Senhora entendeu. Juntou os
pontos e os olhos melancólicos e o tom de voz azulado. Ah, era uma garota. Sempre era uma garota Mas nunca amor verdadeiro. Ela não pode separar amores verdadeiros tão radicalmente quanto o fez.
"Qual era o nome dela?"
"Elisa." - disse no mesmo segundo.
Mas Ela separou. Sentiu em cada fêmura letra que ele pronunciou. 
Não poderia ter o feito, mas o fez. 
"Você se sentiria melhor se ela estivesse com você, neste momento?" 
"Não. Prefiro ficar do jeito que estou pra sempre à tê-la comigo aqui em baixo." 
"Por quê?"
"Ela tem muito o que viver. Não quero que ela jogue tudo isso no lixo por mim."
"Mas seria menos doloroso."
"Eu não me importo."
Parou. Era raro Ela errar, mas quando o fazia, era um erro que poderia afetar todo o universo. Ser o ferro de milhōes de estrelas, empurrar buracos negros para lugares indevidos, abrir uma grande fenda para o Vazio. Cada segundo que se passava, mais perigo corria. 
Não poderia levar o menino para a Terra, não poderia levar a menina para o Lugar. 
Teria que colocar um pouco de cada um em cada lugar.  
"Cometi um erro."
"Todos cometemos erros."
"Mas eu não sou todos."
"Você é, sim."
"Posso ser todos os mortos. E mortos não cometem."
"Você é você. Apenas você. E você comete erros." 
"E agora isso vai custar um preço muito alto."
"Sempre custa."
E trocou milhares e trilhares de palavras com a voz azulada em segundos. Eles tinham esse tempo diferente, que vinha 
em montanhas russas.
Decidiu. 
Em algumas horas tomou a luz mais forte que achou - da cauda de um cometa - e bordou Elisa, exatamente como era, roubando algumas de suas lágrimas e seu batom favorito (qual marcava todos seus sorrisos). E a deitou em cima do mármore gravado em números e cruzes.
"Porque ela, meu querido, estará com você antes, durante, e depois do fim, em todos os sentidos possíveis." Percebendo, que ele faria o mesmo por ela sem mesmo notar.

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