girl on fire
14:05Então ela se levantou. Caminhou sobre aquele chão de textura esquisita, que parecia pele humana. Não. Era pele humana. Deu uma olhada ao seu redor e concluiu que não havia mais tempo para descansos. Se eles não achassem qualquer líquido ou comida, morreriam por falta disso - o que era um jeito patético de partir, considerando que haviam milhares de monstros ali em baixo.
- Vamos. - disse, num pulo, com a voz mais animadora que conseguiu.
Puxou a mão cheia de bolhas, inchada, vermelha do namorado cuidadosamente e o forçou a andar. Eles andaram pelo o que pareceu quilômetros por dias. Mas o tempo corria diferente ali. Poderia ser apenas um minuto ou mesmo um ano. Ela afastou esse pensamento chacoalhando a cabeça forte. Percy tinha os lábios rachados, a camisa cheia de buracos e cortes em cada membro. Annabeth mal conseguia se mover, até os seus ossos pareciam se fragilizar, ameaçando transformar-se no mesmo ácido vermelho das "nuvens" daquele lugar, os seus olhos embaçados e estômago ardido. Rezou à sua mãe, mais uma vez, implorando por qualquer ajuda. Aquela estúpida estátua trouxe não só ela, mas o seu amor - que não tinha nem que estar com ela, também - junto para ali. E então avistou um rio, no meio do vazio, como um oásis perdido. O casal trocou um olhar incrédulo e eles correram para perto.
- Droga. - xingou Percy, percebendo que não era água que navegava ali.
Era uma substância que tremulava em vermelho e laranja e amarelo, soltando pequenas faíscas ao colidir com pedras, deslizando pela cama do rio e erodindo cada parte do próprio, mais e mais, até formar pequenas saliências em sua superfície. Conforme os segundos passavam, aquilo parecia apressar o seu percurso.
- Espera.
Ele olhou para ela. Annabeth vasculhou a mente à procura de lendas, qualquer coisa que a certificasse que o líquido poderia ser bebido e não matá-los.
- Isso é fogo. - ela disse.
- Fogo.. líquido?
- Esse é o rio Flegetonte. O fogo faz as criaturas que são condenadas ao sofrimento eterno sobreviver mais e se fortalecer, para então sofrerem mais.
- Ótimo, adoro sofrimento. - o namorado comentou ironicamente, revirando os olhos.
- Não seja burro. É a nossa chance.
Juntou-se à margem do rio e uniu as mãos. Ela tinha que arriscar, precisava de força. Enfiou as mãos esperando queimar-se, mas sentiu apenas uma sensação estranhamente refrescante, como uma brisa no fim de uma noite no verão. Apanhou o fogo e bebeu: desceu rasgando, preenchendo sua garganta com um gosto de graxa e estrume e própolis puro. Quis vomitar, mas se fez continuar a derramar aquilo na boca e engolir de novo e de novo. Se sentia mais forte, como se tivesse tomado uma garrafa de néctar e comido ambrosia. O tornozelo parecia bem mais suportável, o pulmão parou de tentar queimar os próprios brônquios. Olhou para Percy e ele a encarava horrorizado.
- Sua vez.
Baseado em A Casa de Hades.
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