11:22

Uma sala de paredes e chão tão brancos quanto folhas sulfites. Luz entrava pelo teto, fazendo quase impossível olhar-se adiante. O garoto entrou. Manchou o chão com as suas botas enlamadas e ignorando a claridade cegante, virou a cabeça pra cima e sabia que ali tinha alguma coisa. Pisou fundo e continuou. O silêncio era tão pesado que era possível molda-lo ao seus conformes. Os olhos arderam, como se todos os raios solares resolvessem pousar ali. Enfiando o rosto nos braços, tropeçou nos cadarços. Sua avó sempre dizia para amarrá-los, mas ele nunca deu a mínima: colocava-os dentro do sapato de qualquer jeito e fazia o que tinha que fazer. Não gostava de desperdiçar o seu tempo com coisas assim. Agora, o que mais tinha era tempo. Parou e os enlaçou. Satisfeito, prosseguiu e distinguiu uma forma alguns metros de distância. Seria uma menina...?

Era.
Era definitivamente uma menina.
Era "a" menina.
Ela estava com as costas cobertas pelo cabelo preto liso, bagunçado, com margaridas colocadas entre as mechas, abraçada aos joelhos e com a cabeça caída.. Pintas delicadas traçavam os braços e as pernas, ele via. Costelas saltavam, os ossos dos quadris nus. Alex sentiu sua melancolia dali. Quis correr até seus pulmões estourarem, mas não o fez. Não era covarde. Ele tinha que enfrentar as consequências. Só não entendi: por que fora enviado ali? Como ela ainda está viva? Ele já não estava sofrendo o suficiente?
Suspeitava, no entanto, a resposta da última pergunta. Era óbvio que não, ele descobriu, assim que a menina se virou. 
Ela notou tudo. Os cabelos loiros dele estavam levantados num topete rebelde, as cicatrizes daquela vez que a encontrara só estavam mais saliente, uma nova camiseta o cobria, o nariz milímetros mais entortado, nem mesmo um fantasma de sorriso em seu rosto. As mesmas botas. Os mesmos olhos - não. Isso era mentira. Dessa vez eles não a levavam para a sua alma. Era como se estivesse vazio, opaco. Talvez estivesse.
Alex gemeu. Não sentiu nada além do comum: a dor excruciante no peito, bem no coração - e não era só física. Aquilo que, metaforicamente dizendo, ele não tinha. A ironia disso é mais do que óbvia. Os pesadelos atormentavam-o toda maldita noite, os lapsos de memória rachando o seu crânio a cada segundo, demônios correndo em sua pele. Não havia exorcista que os tirassem. Não havia mais cura que o curasse. Nem a morte iria acolhê-lo mais. (...)


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