kin and the ring. p2
07:09Encontrou-se respirando um ar gélido e áspero, que deixava cócegas nas suas vias aéras e refrescava o pulmão a cada golfada. Ela não tinha fechado os olhos por aquele minuto inteiro depois de ter chegado ali, com medo de tudo aquilo desaparecer, escapar como um sonho o faz algumas horas depois de acordamos. Mas então seus olhos não aguentavam mais, e instintivamente, ela piscou. E piscou. E piscou. E as coisas continuaram daquele jeito.
Que coisas, exatamente?
Se você a perguntasse, ela não iria saber te dizer - isso porque a menina é a mais tagarela de todo o bairro, do tipo que, quando a família senta à mesa, ela fala tanto que deixa a comida esfriar e sua mãe tem que aquecer de novo. Grandioso, talvez, conseguisse pronunciar, mesmo que não seja o suficiente. Olhou ao seu redor, atordoada, com sinapses correndo e correndo em seu corpo, lutando para entender aquilo.
Era óbvio que não era o mesmo planeta: ela sabia disso pelos livros. Não escutou nem um ruído além das vozes dentro de sua mente, viu bilhares de estrelas grudadas ao céu e cada ponto que olhava havia um círculo bem grande, como se fosse uma lua. O chão era macio de pisar, mas ao mesmo tempo, escorregadio. Então o desespero finalmente baixou-se, demorando um pouco mais do esperado. Primeiramente, ela não tinha ideia de onde estava - mas sabia que estava muito longe de casa. Segundo, não sabia o que tinha acontecido. Terceiro, ela não tinha água nem comida nem mesmo um casaco (note que a menina está de pijamas azuis). Quarto, ela estava sozinha.
Não demorou muito para os soluços virem e todas as possibilidades loucas voarem para a sua cabeça em um segundo. Será que sua família irá a procurar por anos e anos e então assumir que ela morreu de algum jeito misterioso, como todos fazem? O que acontecerá a Sra. Plum? E os seus livros, quem irá limpá-los toda semana e arrumá-los por título e tamanho e cor? Qual será o final de O Pequeno Príncipe (ela havia começado a lê-lo um dia antes e estava quase terminando-o)? As pessoas irão chorar por sua causa? Nina, sua cocker spaniel gorda, irá sentir sua falta? Sua irmã ficará com o seu quarto e tirará todo o papel de parede florido porque sempre odiara, enquanto a menina demorou horas para colocá-lo? Mamãe a matará se ela morrer. Ou desaparecer. E agora? Ela irá morrer de frio ou de fome? Qual seria o mais doloroso? O que há depois da morte? Oh. Meu. Deus. Ela nunca vai dizer adeus para mamãe. Nem para Carolina ou Thomas. Eles nunca saberão o quanto ela os ama. Pensando em tudo isso e mais um pouco e mais ao mesmo tempo, seu cérebro gritou por uma pausa. Não aguentava mais pensar: era demais ter de lidar com tanta informação.
Sentindo-se impotente - uma das sensações que mais odiava -, jogou-se no chão, que acolheu-a como um manto quente e chorou até cair no sono. Teve pesadelos confusos sobre prédios altos e morangos, acordando toda hora esperando estar em casa. Levantou-se sabe se lá quanto tempo depois, com os ciclios grudados e pela primeira vez na vida, com fome - mas fome de verdade, ao ponto de parecer que tem um buraco no seu estômago e você, gradualmente, sentir seu corpo tentando absorver toda a gordura possível que há (e no caso da menina, não era muita, considerando sua magreza de garça). Ela nunca havia sentido tanta assim, se sentiu fraca e a sua visão começou a ficar turva e preta. Agachou-se, mas tentou manter a cabeça levantada. Não tinha certeza se funcionava, mas sua avó dizia para o fazer se sentisse qualquer tipo de sensação ruim - não apenas fraqueza assim, mas como espíritos e coisa e tal. Calafrios percorreram sua espinha e uma de suas sobrancelhas automaticamente levantou-se ao ouvir um ruído. Tentou se concentrar nele e não no fato de tudo estar um verdadeiro caos, percebendo mais o ruído tão tão tão baixo que só naquele profundo silêncio poderia ser ouvido. Não tinha ideia do que poderia ser, mas agarrou-se à aquilo como sua última esperança. Se pôs em pé lentamente, caminhando em pés cuidadosos atrás do barulho, que lembrava o sopro de uma brisa e sussurros. Estava apenas seguidos seus instintos, apurados e desesperados por qualquer chance de sobrêvivencia.
O som ficava mais e mais alto, multiplicando-se duas vezes a cada passo seu. E, mais uma vez, não conseguia acreditar no que estava vendo.
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