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Folham rolavam pelo chão fazendo um chiado áspero. A paisagem estava deteriorada: as árvores nuas, as nuvens nada tímidas, buracos fundos no chão preenchidos com água, corvos alimentando-se de si mesmos. Luzes redondas bordavam a cidade e crianças eram afogadas em casacos exagerados e os penteados de suas mães foram estragados pela chuva persistente. Era por isso que ninguém a encarava. Seu rímel borrado poderia ser por isso, as roupas poderiam estar naquele estado deplorável por causa da lama que rodeava todo o lugar, os cortes no rosto pelo vento de oitenta quilômetros por hora. Era loucura sair de casa naquele dia. Você poderia ficar preso na neve de um metro de altura, morrer de hipotermia ou ser atingido por um carro por causa da pista escorregadia. Mas ainda há pessoas que precisavam o fazer - como ela. Olhou revoltada para as mães em Calvin Klein, Gucci e Chanel, ali pelo luxo, enquanto ela sofria como uma borralheira escrava. Como Cinderela, mas sem a beleza e a fada madrinha - pensou. A dor a atingia em pontos altos e baixos, numa montanha russa masoquista, como se os carrinhos fossem feitos de prego e os trilhos banhados em lava, mas que ainda tivesse cinto de segurança e as voltas mais rápidas do mundo. Ela cansou. Cansou. Can-sou. Virou as mesas, quebrou o lustre de dez mil cristais e jogou todas aquelas estúpidas pessoas contra a parede. Com os olhos. (...)
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