paper towns
09:27"Quando pensava na morte dele, o que, diga-se de passagem, não aconteceu tantas vezes
assim, eu sempre pensava da forma como você tinha descrito, como se os fios dentro dele
tivessem se arrebentado. Mas existem milhares de maneiras de se pensar a situação: talvez os
fios se arrebentem, talvez o navio naufrague ou talvez nós sejamos relva, nossas raízes tão
interdependentes que ninguém estará morto enquanto houver alguém vivo. O que quero dizer
é que as metáforas não são poucas. Mas você precisa ser cuidadoso ao escolher sua metáfora,
porque ela faz diferença. Se escolher os fios, significa que está imaginando um mundo no qual
você pode se arrebentar de forma irreparável. Se escolher a relva, então quer dizer que todos
nós somos interligados e que usamos esse sistema radicular não apenas para compreendermos
uns aos outros, mas também para nos tornarmos o outro. As metáforas têm consequências.
Está entendendo o que quero dizer?
Ela faz que sim com a cabeça.
— Gosto dos fios. Sempre gostei. Porque é exatamente assim que eu me sinto. No entanto,
acho que eles fazem a dor parecer mais fatal do que realmente é. Não somos tão frágeis quanto
os fios nos fariam acreditar. E gosto da relva também. Foi ela que me trouxe até você, que me
ajudou a imaginá-lo como uma pessoa de verdade. Mas não somos brotos diferentes da mesma
planta. Eu não consigo ser você. Você não consegue ser eu. Por mais que você imagine o outro,
nunca o imaginará com perfeição, não é? Talvez seja mais como o que você falou antes, rachaduras em todos nós. Como se cada um tivesse começado como um navio inteiramente à prova d’água. Mas as coisas vão acontecendo…as pessoas se vão, ou deixam de nos amar, ou não nos entendem, ou nós não as entendemos… e nós perdemos, erramos, magoamos uns aos outros. E o navio começa a rachar em
determinados lugares. E então, quando o navio racha, o final é inevitável. Quando começa a
chover dentro do Osprey, ele nunca vai voltar a ser o que era. Mas ainda há um tempo entre o
momento em que as rachaduras começam a se abrir e o momento em que nós nos rompemos
por completo. E é nesse intervalo que conseguimos enxergar uns aos outros, porque vemos
além de nós mesmos, através de nossas rachaduras, e vemos dentro dos outros através das
rachaduras deles. Quando foi que nos olhamos cara a cara? Não até que você tivesse visto
através das minhas rachaduras, e eu, das suas. Antes disso, estávamos apenas observando a ideia
que fazíamos um do outro, tipo olhando para sua persiana sem nunca enxergar o quarto lá
dentro. Mas, uma vez que o navio se racha, a luz consegue entrar. E a luz consegue sair. "
- Cidades de Papel, John Green.
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