there's no cure
08:04Eu tremia compulsivamente, meus dentes batiam e rangiam. Respirei fundo 7 vezes, mas não adiantava: meus dedos chacoalhavam sem trégua e uma dor apossava todo o meu coração. Ouvi dizer que ele é um músculo que não dói assim, mas eu tenho certeza que naquela hora doeu. A aflição mais profunda que eu já senti, como se alguém o apertasse e o contorcesse. Quis chorar um rio. Uma angústia me abrangeu, minha garganta travou. Tum-tum-tum, tum-tum-tum, ele batia - e de um jeito anormal, igual à mim. "Será que isso terá um fim?", pensei. Me faltou coragem para enfiar alguma lâmina no meu corpo, mas estava tão desesperada que eu o faria. Arfei. Eu estava pensando longe, "que roupa irão escolher para o meu funeral? Todos os meus sapatos altos estão na casa de Helena e eles não vão à Portugal para buscá-los!" "será que irão vender os meus livros?" "como irão avisar à Débora que morri? Que me matei?" "como ele irá se sentir? Será que irá chorar?". Rio ao lembrar disso, mas a morte parecia tão assustadoramente perto, pronta para me beijar. Eu até vi suas asas de corvo, escutei sua voz áspera. Senti o sangue se espalhar por dentro de mim, entupindo cada linha de corrida minha. E a dor, ah, a dor. Mil pregos me perfurando. Meteoros me detonando. Minha alma lutava para sair do meu corpo, mas eu usava as poucas forças que tinha para acalmá-la. Estava ruim, cada vez pior, caindo em um poço sem fundo. E eu não tinha nenhuma corda. (...)
0 comentários