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13:31Batidas e batidas, knoc, knoc, knoc. Não tem ninguém em casa, ninguém, nem se quer um espírito respirando. Não me importo, continuo, sorri pra mim mesma. Todo o caminho pareceu morto e vivo e eu o percorri em segundos, atravessando as paredes de um horizonte sem fim, correndo para casa (casa?) em passos tímidos porém largos, pulando poças de águas com caranguejos, batendo a sola do pé nas ruas desoladas e sujas e feias dali. É a décima sétima batida, meus dedos estão se esfolando, meu cérebro está gritando para para para. Não paro. Ele não entende, estúpido, não entende. Ele não entende meu fogo, minha vontade, meu gás, ele não entende que eu estou entrando, gradativamente, em combustão. Faíscas correm as minha veias, dentes batendo e fazendo atrito, a porta se partindo e caindo aos pedaços e sendo destruída. Por que? Por que? Por que? Porque sim, porra. Minha cabeça está fula de ódio e amargura e saudade. Meus ossos estão se quebrando, um por um, até eu me transformar em pó. Meu coração não bombeia o escarlate, mas sim a escuridão. Está comendo as minhas entranhas, está possuindo-me. Meus monstros parecem tolos, o meu oxigênio parece escasso. Está tudo se reduzindo à nada, transformando o mais em menos, reluzindo toda a minha falta de sabedoria, a minha falta de simpatia, a minha falta de alguma-coisa-ia. Eu não sou coisa nenhuma, mas ainda consigo ser algo. Duas ideias opostas são as mesmas, todos no fundo são o mesmo, seja Gandhi, seja Hilter, seja eu, seja você. A vida é morte e vice-versa. Você estava certo amor, é verdade. Eu queria ter sabido disso antes. Não me importo de deixar essas coisas para trás. Abandonar meu LeBaron recém comprado, meus charutos cubanos, minha Pentax. Isabelle, Thomas, Alice ou Frederico. Tudo e todos parecem-são tão pouco comparado ao que me espera. Eu quero voar, eu quero explodir, eu quero viver além da vida. E é isso que eu continuo a pensar quando enfio as lascas amadeiradas no meu corpo. É isso que penso quando a dor me aflige em ondas engraçadas e altas e quebram e fazem uma espuma vermelha. É isso que continuo pensando até os últimos traços de vida na Terra somem. Sem despedidas. Mundo pra trás, vida pra frente..
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