and i'll be drunk again
15:36
Só que não fazia o mínimo sentido. Todas as aquelas luzes dançantes, a fumaça abraçando os corpos insanos girando por ali, o teto balançando como uma melodia surreal e macabra. As pessoas em volta carregavam copos com conteúdo transparente, e viravam-os na boca quase como se fosse água. Mas era óbvio que não era. As caretas demostravam a sensação da garganta rasgando e segundos depois, sorrisos formando-se nos lábios.
E uma dessas pessoas, era eu. "Que negócio horrível", pensei.
- Que negócio horrível. - é, talvez eu tenha falado.
- Não é para ser bom, M. É para te deixar tonto. - ouço em resposta
Olho de soslaio para ele. O olhar tão profundo é onde mergulho minhas preces, e o negro do olho é a minha lanterna, a minha guia. Os passos tão arrastados e pesados trilham um caminho perfeitamente desenhado. A boca solta palavras tão melodiosas e os lábios são tão legíveis. O compasso de seu coração combina com o meu. A pele tão rude tem o toque mais delicado de todos. Sinto a respiração arquejando daqui e por dentro, sei o quão ele é obstinado, pragmático, jucado. O sorriso de dentes branquíssimos nunca é transparente, e parece que é um raio do sul emergido da mais profunda escuridão. As linhas do cenho, da bochecha, do queixo são traçados tão perfeitamente, quase como se fosse desenhado por Deus. E, nossa, que desenho. Viajei um pouco demais, percebo. E reflito sobre o que ele disse. Bebida é totalmente perversa. Parece bonita e como tudo o que é bonito, teoricamente, é bom, deduzimos que é bom também. Mas é amarga. Pior que café forte sem açúcar, jiló sem tempero, a vida sem Tate.
Mesmo assim, sinto-me vazia, incompleta, despedaçada, como se tivessem levado cada gota de quaisquer sentimentos ou energias ou lembranças minhas.
Nada me ajuda. Nem mesmo essa porcaria me deixa tonta - e é o meu terceiro copo. É. Acabaram com todos os resquícios de recuperação. Destroçaram o meu cérebro e desmembraram-me por completo, encontraram algo que é mais duro que o diamante, do que isso que me fazia reluzir e permanecer forte e jogaram meus fragmentos ao um abismo que não existe fim, a fim de que eu nunca me reconstrua, que eu sempre esteja caindo, caindo, caindo. Minha armadura rompeu-se, meu escudo já não é tão impenetrável assim. Aquele cadeado que protegia a sete chaves a mais terrível tortura fora arrombado e aberto, liberando cada grito, cada lágrima, cada clamo* de ajuda. Mesmo que eu grite com a voz mais alta, a mais forte chaleira, a mais poderosa bomba ninguém vai ouvir. Ficarei com tímpanos estourados, cordas vocais destruídas.. Porque eu estou amarrada, encurralada dentro de mim mesma, como um labirinto sem término, apenas presa e dando voltas que fazem me voltar ao mesmo lugar.
E sei que nenhum negócio horrível vai ajudar, nem as luzes, nem mesmo o desenho de Deus. Não há salvação para mim.
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